MISSÃO? QUE MISSÃO?

ERAM OS FRANCESES MISSIONÁRIOS?

A tarefa do historiador é, muitas vezes, melancólica. Por mais que queira, certos documentos insistem em não dizer o que se pretende que digam, assim como teimosamente negam sua origem e contexto. È o caso de uma carta deixada por Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), pintor de extração neoclássica, mestre no gênero de paisagem. Em 1815, no momento da queda de Napoleão, Taunay era vice-presidente da Classe de Belas-Artes do Institut de France, renomada escola de artes e ciência. Fazia parte de um grupo de artista que, vinculados ao Estado, estavam habituados a consagrar a glória da pátria.

Sem data, carimbo, timbre de instituição ou anotação, a carta sobreviveu as armadilhas do tempo, mas ficou encerrada em sua própria lógica. O  súdito francês se apresenta, gaba-se de seus 60 anos e alegados cabelos brancos e oferece serviços ao principe de Portugal, como conservar quadros, estátuas, e tudo que fosse necessário. Ainda mais: tenta garantir para si o posto de professor dos filhos de D. João.

É possível arriscar duas hipótese. A primeira é que a carta de Taunay foi escrita em 1815. Seria posterior ao 3 de julho, quando os exércitos da Coligação tomaram Paris após a batalha de Waterloo. Os antigos aliados de Napoleão sofreram com os reverses da política e se converteram em exilados - oficiais ou não.

A segunda hipótese é mais controvertida. Mais há fartas evidências de que pode ser verdadeira. A carta de taunay teria sido escrita em 1816, já no Brasil, e entregue em mãos ao regente. No Rio de Janeiro, os artistas da "missão francesa" teriam procurado, cada um por si, garantir seu emprego. Para aceitar esta versão, é preciso partir do princípio de que a chamada missão jamais fora, de fato uma " missão"

É dificio saber se a "missão artistica" foi um plano estratégico da Corte de D. João ou uma espécie de afastamento compulsório de artista ligados a Napoleão. Parece ter existido uma convergência de interesses. De um lado, artistas formados pela Academia Francesa inesperadamente desempregados. De outro, uma monarquia estacionada na América e carente de representação oficial. Foi a partir da conjunção dessas situações que surgiu aquela que hoje é conhecida como a "Missão Francesa de 1816"

A versão oficial sustenta que em 1815 o governo encarregou D. Pedro José  Joaquim Vito Menezes Coutinho (c. 1775-1823), o marquês de Marialva, embaixador extraodinário de Portugal na França, de contratar diversos artístas reconhecidos em seu meio, a fim de criar uma escola para formação artistica e de trabalhadores industriais. Mais por que a corte selecionaria justamente franceses, ainda mais ligados a Napoleão, responsável direto pela transferência da família real para o Brasil? Mesmo que as relações entre os dois países fossem oficialmente amigáveis desde 1814, havia no mercado artistas italianos, paisagistas holandeses, retratistas ingleses e pintores portugueses e nacionais à disposição.Com certeza, trariam menos embaraços políticos.

Além do mais, o marqês de Marialva mal teve tempo de se interar do tema, uma vez que deixou o cargo em 1815, sendo substituído por Francisco José Maria de Brito. Sabe-se que o novo ministro trocou intensas correspondência em Joachim Lebreton (1760-1819), administrador das obras de arte no Museu do Louvre e secretário perpétuo da Clase de Belas-Artes do Instituto de France. A iniciativa de formar um grupo de artistas para servir à Corte portuguesa pode ter sido toda do influente  Lebreton, e não do Estado português.

De onde veio, então, a teoria de uma "missão" convocada por D. João? Começou com um membro do grupo, Jean-Baptista Debret, que no terceiro volume da Viagem pitoresca e histórica ao Brasil se refere a um "convite". A versão viraria tese quando Araújo Porto Alegre, discípulo direto de Debret, sustentou a interpretação de mestre. Em  diversos textos mencionou a "colônia artistica", inspirada outras análises consagradas, como o artigo de Arújo Viana "Das artes plásticas no Brasil em geral e na cidade do Rio de Janeiro em particular" (1915)

Mas o grupo ainda não era definido como uma "missão". Foi Afonso Taunay quem adotou a expressão em seu longo artigo "A Missão Artistica de 1816), na edição de 1912 da Revista do Instituto Hitórico e Gográfico Brasileiro (IHGB).
Bisneto de Nicolas Taunay, o historiador afirma que   "a colônia americana vivia abadonada, esquecida e ignorada pelo mundo culto", e só contava com pintores e escultores "mediocres". A vinda dos pintores franceses tiraria "a colônia da modorra secular". Em 1916, o próprio IHGB promoveria uma série de comemorações por conta de centenário da chegada do grupo. Juntava-se o préstigio da família Taunay com atradição do IHGB, e a "colônia de artistas" passou a ser entendida como uma "missão". Tal interpretação receberia estatuto de verdade com a publicação de ensaio de Taunay em livro, em 1956.

Interssante é que a palavra "missão" pressupõe a noção de obrigação e dever. O tempo tem origem no mesmo campo semântico de "missa", derivado de minere (enviar), que indica um mandato, uma incubência. Afonso Taunay tratou, pois, de conferir um caráter abnegado e sacrificial aos missionários. Os artistas se transformavam em religiosos da arte, portadores de uma nova fé: neste caso, a própria civilização.


Fichameno da pesquisa.
História da Arte - Missão Francesa.
Revista de História da Biblioteca Nacional
Prof: Ivanice Frazão

Alaila Resende

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