Iluminismo: causas e características


Voltaire - Rousseau - Montesquieu


1.1. Iluminismo
O iluminismo é um movimento cultural ocorrido nos séculos XVII e XVIII tendo como principal característica uma confiança ilimitada na razão humana como instrumento capaz de alcançar a verdade.
Nesse período, a Europa estava sob o reinado do Racionalismo acompanhado da crescente ascensão da burguesia e os desenvolvimentos das ciências, principalmente a química, física e a matemática.
O Iluminismo vai pressupor algo que está escuro e necessita ser iluminado. Para os iluministas o homem se ilumina com o conhecimento científico. O escuro é a ignorância e a luz é a do conhecimento. O bem é a ciência e o mal a ignorância. Por isso, faça o bem, isto é busque conhecimento e se entregue as ciências, evitando o mal, a ignorância.
Há um desprezo pelos conhecimentos fora do campo cientifico. O cristianismo é visto como um mito, arcaico, desprezível. Somente a razão oferece um conhecimento seguro da realidade, isto faz a ciência ser venerada, semelhante uma deusa. A razão torna-se autônoma, não necessitando nem da fé e nem da tradição. O conhecimento vem da própria razão humana, imanente.

1.2. Causas do Iluminismo
12.1. Renascença
O Renascimento “pode ser caracterizado como uma tendência (ou movimento) cultural laica (isto é, não - eclesiástica), racional e científica, que se estendeu do século XIV ao XVI. Inspirando-se na cultura grego romana, rejeitava os valores feudais a ponto de considerar o período medieval a “Idade das trevas” (VICENTINO, DORIGO, 2011, p. 195).
 O Renascimento provoca um rompimento com as ideias medievais: para os medievais renascer era a oportunidade que o homem recebeu, após o pecado de Adão, de viver novamente com Cristo. A natureza despertava interesse na Idade Media, enquanto, através dela, podia-se chegar ao Criador. A Igreja é o centro das atenções em virtude do divino poder de unir o homem a Deus através dos sacramentos; é o deposito vivo da verdade. É necessário crer em Deus para entender, credo ut intelligan. Logo, a filosofia é a escrava da teologia.
Na modernidade, o renascimento consiste em reviver novamente aqueles valores da Antiguidade Clássica, onde acreditavam que o homem havia se realizado mais plenamente. Existe um pedido de renovação religiosa, das concepções políticas e um interesse em investigar a natureza (naturalismo), seja de forma metafísica ou cientifica.
No mundo moderno grita-se: “não mais teocentrismo, nem autoritarismo eclesiástico, mas autonomia do mundo da cultura em relação a todo fim transcendente; livre explicação da atividade que o constitui; supremacia da evidência racional na procura da verdade; consciência do valor absoluto da pessoa humana e afirmação do seu poder soberano no mundo” (MONDIN, 1983, p. 08).
Com o renascimento inseri-se o contrário nas ideias que faziam o mundo medieval girar, muda-se o paradigma, a visão de mundo. O humanismo gera um antropocentrismo. O homem com sua razão é capaz de conhecer o cosmos. O humano se aproxima de Deus partindo de atributos específicos de sua natureza, logo está lado a lado com Ele.

1.2.2. Racionalismo
O racionalismo tem por pressuposto a razão como instrumento capaz de atingir a verdade. Para o racionalismo um conhecimento só é verdadeiro se for apolítico, isto é, tiver validade universal e necessidade lógica. O Racionalismo está inserido numa das causas do Iluminismo devida a sua exigência metodológica de ideias claras e distintas: “nada mais incluir em meus juízos além do que se apresenta tão clara e tão distintamente ao meu espírito que eu não tenha nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida” (DESCARTES, 2008, p. 25).  Segundo Johannes Hessen (2003, p. 48) é possível isso acontecer quando “minha razão julga que deve ser assim, que não pode ser de outro modo e que, por isso, deve ser assim sempre e em toda parte, então (e só então), segundo o modo de ver do racionalismo, estamos lidando com um conhecimento autentico”. Se alguém diz: “duas linhas paralelas e retas nunca vão se cruzar no espaço”. Percebo com minha razão que esse juízo é verdadeiro e que se outra pessoa estivesse afirmando o contrário estaria errada.  É impossível através dos sentidos constatar a afirmação desse juízo, é uma operação puramente mental.
Um dos principais racionalistas da época é o filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650). Depois de elaborar as quatro regras do método (intuição, análise, síntese e enumeração), busca uma moral provisória e, posteriormente, chega a dúvida metódica: “assim, uma vez que os nossos sentidos às vezes nos iludem, quis supor que não havia nenhuma coisa que fosse tal como eles nos fazem imaginá-la... rejeitei como falsas todas as razões que tomara antes como demonstrações... resolvi fingir que todas as coisas que  jamais me entraram no espírito não fossem mais verdadeiras que as ilusões dos meus sonhos” (DESCARTES,  2008, p. 35). A única certeza que Descartes atinge é a do pensamento: “daí soube que eu era uma substância de que toda a essência ou natureza não é senão pensar...” Já não precisa da natureza a sua volta, pois essa é menos perfeita do que ele, mas sim da razão que o possibilita chegar a ideias de Deus, partindo da ideia de perfeição. Enfim, a essência do homem é o pensamento, é a sua razão que o possibilita chegar à verdade.

1.2.3 Empirismo
Ao contrário do racionalismo, o Empirismo exige que o conhecimento seja baseado na experiência. É a experiência e, em última análise, nossas percepções sensoriais que fornecem o conhecimento. Para o Empirismo nada pode ser pensado se antes não passar pelos sentidos. Não existem ideias inatas, isto é, ideias como germes, ou, que o homem já nasceria com elas. “Por ocasião do nascimento, o espírito humano está vazio de conteúdos, é uma tabula rasa, uma folha em branco sobre a qual a experiência irá escrever. Todos os nossos conceitos, mesmo os mais universais e abstratos, provém da experiência” (HESSEN, 2003, p. 55). 
Embora na antiguidade existam algumas ideias Empiristas, e na Idade Moderna que essa corrente de pensamento ganha sistematização com seus representantes principais. John Locke embora insista na ideia estóica de que a pessoa nasce com sua mente vazia, uma folha em branco, e afirme a experiência externa e interna, acaba por aceitar ideias a priori para justificar a validade lógica dos conhecimentos vindos da experiência.
É com David Hume que o Empirismo ganha força. Divide as percepções do espírito humano em duas classes: pensamentos ou ideias e percepções. “Pelo termo impressão entendo, pois, todas as nossas percepções mais vivas, quando ouvimos, vemos, sentimos, amamos, odiamos, desejamos ou que remos. E as impressões diferenciam-se das idéias, que são as percepções menos vivas, das quais temos consciência, quando refletimos sobre quais quer das sensações ou dos movimentos acima mencionados” (HUME, http://br.egroups.com/group/acropolis/, p. 11).
Hume vê na matemática conceitos que provém da experiência, mas que, sem chances de erros, existem algumas relações entre eles independem de qualquer experiência, isto é, existem relações que são operações puramente intelectuais.
O Empirismo contribui para a Filosofia das luzes. Segundo Nicola Abbagnano (2007, p. 619) “De fato, só a atitude empirista garante a abertura do domínio da ciência e, em geral, do conhecimento, à crítica da razão, pois consiste em admitir que toda verdade pode e deve ser posta à prova, eventualmente  modificada, corrigida ou abandonada. Isso explica por que o Iluminismo sempre esteve estritamente unido a atitude empirista”.

1.2.4.  O progresso das ciências
A capacidade de o homem demonstrar as leis da natureza de forma matemática, principalmente com Newton e Galileu, gerou um clima de veneração das ciências: a razão humana substituindo a interferência divina no Universo.
Entretanto, propriamente dito, foi no século XVIII que aumentou o interesse humano pelas ciências, todos os órgãos da sociedade procuravam explicações no método cientifico e os cientistas eram venerados. Surgem novas disciplinas em virtude dos investimentos serem considerados honrarias. Na Inglaterra surge a mecanização industrial: a máquina de fiar, o tear hidráulico, a máquina a vapor, o barco e a locomotiva a vapor. Todos esses progressos da primeira revolução Industrial deixam o homem maravilhado.
Gera um clima psicológico cientificista. O que será isso? Segundo Nicola Abbagnano, o cientificismo é a “atitude de quem atribui importância preponderante a ciência em comparação as outras atividades humanas, ou de quem considera que não há limites para a validade e a extensão do conhecimento cientifico” (ABBAGNANO 2007, p. 165).
Com a exaltação do conhecimento científico cria-se um reducionismo no campo do saber: o único conhecimento válido é o científico. Cria-se um conhecimento que descarta os fatores subjetivos interresando-se somente pelos aspectos impessoais e mensuráveis das coisas. A dimensão do homem enquanto um ser que tem seus conflitos psicológicos é simplesmente abandonada. O que não se pode ver não se pode provar.
A ciência ganha status de grandíssima importância. Já não é necessário Deus, basta o homem e sua razão. Filósofos da época, como Augusto Conte, vêm na ciência à fonte de solução para todos os males, o amadurecimento último do homem e a necessidade de criar a religião da humanidade. “Ordem e progresso” foi a proclamação de um Conte cheio de esperança. Mas que nada! Ordem: em que direção? Progresso: para quantos? O mundo... caminhava para o caos, poucos grupos dominavam quase toda a riqueza, os bens culturais e o poder político do mundo” ( ALMEIDA, 1998, p. 08).
E a segundo Revolução Industrial, no século XIX, que não é causa mais conseqüência do Iluminismo. Quantos progressos: a descoberta da eletricidade, a transformação do ferro em aço, ferrovias, o automóvel, o avião, telégrafo, telefone... A chamada terceira revolução, na metade do século XX, com a microeletrônica, robótica, biotecnologia...  Como é grande a Inteligência humana!
Nos primeiros anos do século XX a ciência e a tecnologia progrediram tanto e juntamente as formas de fazer guerra, as crises econômicas, as formas de suicídio, de depressão. Mais isso foi culpa das ciências ou do super – homem guiado por sua razão?

1.2.5 A reforma protestante
O contexto da reforma protestante está vinculado à crise religiosa da burguesia, que via nas pregações da Igreja um verdadeiro cisco no olho: por condenar a usura e pregar o justo preço. Assim as transações bancárias tornavam-se pecado. Entre estas, a reforma protestante vinha também da descontentação com a desmoralização do clero: “Os abusos e o poder excessivo de seus membros contradiziam abertamente suas pregações moralizadoras. Embora condenassem a usura e desconfiassem do lucro, os membros da Igreja praticavam-nos de forma desenfreada. O comercio de bens – eclesiásticos, o uso da autoridade para garantir  privilégios, o desrespeito ao celibato clerical e até venda de cargos eclesiásticos não era raros na Igreja desde o final da Idade Media. O maior escândalo talvez fosse a venda de indulgencias...” (VICENTINO, DORIGO, 2001, p. 205).
O padre agostiniano Martinho Lutero professor acadêmico afixa em 1517 em Wittenberg as noventa e cinco teses. É considerado herege pela Igreja, mas é acolhido por uma parte da burguesia, principalmente por subordinar a religião ao Estado.
A reforma protestante provocou no mundo europeu um conceito de livre exame. As pessoas que buscam Deus não têm a necessidade de estarem ligadas ao Magistério. Eu, com a minha consciência, posso ler e interpretar as Sagradas Escrituras. Mais uma vez o homem e sua razão.

1.3. Características do Iluminismo
1.3.1. Confiança exagerada na razão humana
Segundo Kant, o Iluminismo é a capacidade que o homem recebeu de utilizar-se do seu próprio intelecto sem depender de outros para orientá-lo.
A razão é a medida de todas as coisas. Gera-se um antropocentrismo. Diferente daqueles valores da idade Média, que colocavam Deus no centro de tudo, Teocentrismo. Agora Deus está lado a lado com o homem. Se Deus existe ou não é problema de cada um.
“Penso, logo sou.” Existe no homem uma realidade que pensa e outra que é pensada. E a realidade que pensa deve ser priorizada a realidade pensada.  Para se utilizar de uma conhecida expressão de Sócrates: “o homem é sua alma”, isto é, sua razão.

1.3.2. Anti-tradicionalismo
Os homens do passado não souberam usar a razão, eram homens de superstição, mitos. Pregam em virtude disso o rompimento com a Igreja que é o museu do passado. “O iluminismo erigiu-se contra a tradição, afirmando que sua herança, na maioria das vezes, é erro, preconceito ou superstição, e recorrendo ao juízo da razão crítica pra contestá-la” (ABBAGNANO, 2007, p. 1150).
A herança cultural oriunda da Idade média, baseada no cristianismo em sua maior parte, é retrograda, obscurece a razão. Para se aderir a tradição faz-se necessário reconhecer seu valor, assumir sua verdade e garantir a confiabilidade cultural e o cristianismo, por ser baseado em dogmas de fé, contradiz a razão.
A aceitação inconsciente da tradição, onde o individuo recebe o acervo cultural sem uma analise critica, tira a liberdade de juízo da pessoa, a potencialidade de analisar o passado e o presente. Por isso certa adesão ao anti-tradicionalismo por parte dos “iluminados”. O futuro será melhor que qualquer passado ou presente, afirma Voltaire.

1.3.3. Naturalismo
 É a crença de que o homem é um ser bom por natureza. O mal não faz parte da natureza humana, mas está inserida na sociedade. Afirma Rousseau “o homem nasce bom é a sociedade que o corrompe”. Devido ao renascimento são revividos aqueles valores gregos herdados dos poemas de Homero e Hesíodo dando preponderante importância ao conceito de natureza; também com os primeiros filósofos e a physis.

Bibliografia:
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. – São Paulo: Ed. Martins Fontes, 2007.
ALMEIDA, Fernando José de. Sartre: é proibido proibir. – São Paulo: Ed. FTD, 1988.
DESCARTES, René. Discurso do Método. – São Paulo: Ed. Martin Claret, 2008.
HESSEN, Johannes. Teoria do conhecimento. São Paulo: Martins Fontes, 2003
HUME,  http://br.egroups.com/group/acropolis/, p. 11  acessado em 25/12/2011
MONDIN, Batista. Curso de Filosofia Vl. 02. São Paulo: ed. Paulinas, 1981
 VICENTINO, Claudio; DORIGO, Gianpaolo. História para o ensino médio: história geral e do Brasil. São Paulo: scipione, 2001

Comentários

  1. Gostaria de saber sobre a arte e vida no período do iluminismo? podem me ajudar nesse seminário?

    ResponderExcluir
  2. Bom dia Wagner ,No século XVIII o ideal iluminista, em seu sentido original, concebeu um projeto coletivo objetivando libertar o homem dos dogmas e da opressão social, enfatizando sua capacidade de autodeterminação. No entanto, na modernidade, o ideal burguês de liberdade e justiça social, em seu sentido original, se tornou ambíguo, objeto de uma expressão ideológica ligada a razões de mercado, levando a cultura e a arte à novos patamares de deterioração social.

    ResponderExcluir
  3. ajudou bastante no meu estudo sobre esse assunto

    ResponderExcluir
  4. Mas iluminação só para eles né!? E escuridão para os negros, os pobres, os doentes físicos e mentais e qualquer um que não se encaixa entre os bem nascidos. Sei o que eles queriam iluminar! E querem até hoje com esse golpe.

    ResponderExcluir
  5. Todo respeito ao seu ponto de vista...

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Arte e Romantismo na Revolução Industrial

Raça e Progresso - Franz Boas